terça-feira, março 24, 2009

"Sobre Volantes" ou "Como a linguagem afeta um debate"

Juca Kfouri, Tostão e Wianey Carlet andam escrevendo sobre o volante. O problema é que eles não estão falando a mesma língua. E aí ninguém se entende.

Esclareçamos. O que Tostão e Kfouri chamam de "volante" -e que estaria desaparecendo- é, de fato, o "cabeça-de-área", o "trinco" ou o "cinco" (sinônimos).

O jogador que fica FIXO à frente da zaga, não pode ser chamado de "volante" (algo, por natureza, móvel). "Volante", como bem lembram os argentinos, é aquele jogador que marca, mas também sai para o jogo. É aquele que tanto pode jogar como "cabeça-de-área" ou "meia" dependendo da situação no jogo.

O "meia-armador", "meia-de-ligação", "meia-atacante", "dez" ou "enganche" (sinônimos) é exatamente o oposto ao "cabeça-de-área". É um jogador que está sempre solto, sem muitas preocupações defensivas, responsável pela armação das jogadas de ataque.

O nome "volante" foi corrompido no Brasil. Passou a significar o "brucutu" quando nunca foi criado para isso. "Volantes" são Gerrard, Hernanes, Lampard, Lucas, Ânderson, etc. Quando foi desenvolvido o 4-4-2 brasileiro, com dois "cabeças-de-área" e dois "enganches", passou-se a chamar os mais recuados de "volantes" -uma alusão ao 4-2-4?- e os mais adiantados de "meias". E estava feita a confusão.

Seria excelente para os nossos "formadores de opinião" futebolística que tratassem ou de estabelecer um nome único para aquilo que se referem, ou, antes de escrever, que buscassem perceber o que o autor quer dizer quando utiliza determinado nome. Caso contrário, o debate fica inviável.

Não achei o texto do Kfouri.

Eis o do Tostão:

Os volantes já eram - O Povo On Line, 21 de março de 2009 - Não sei se por ironia, incoerência e/ou desconhecimento técnico, Dunga disse que, para convocar Ramires e/ou Hernanes, não poderia chamar Kaká. Contra a Itália, Kaká estava contundido e Hernanes e Ramires não foram chamados.

Elano e Anderson são também dois armadores que marcam e atacam. Ramires e Hernanes disputariam posição com os dois, e não com Kaká.

Como Gilberto Silva atua muito recuado, centralizado e raramente passa do meio-campo, Hernanes e Ramires não têm características para fazer essa função. Mas é preciso encontrar um substituto para Gilberto Silva. Por ser mais jovem, ter mais mobilidade e passe mais rápido, Felipe Melo pode se tornar uma boa opção, mas não para atuar ao lado de Gilberto Silva, como fez contra a Itália. Felipe Melo parecia um clone. Dois Gilbertos Silva são demais.

Só se justifica a presença de dois volantes muito recuados e marcadores, como Gilberto Silva e Felipe Melo (ou Josué), nos momentos em que o Brasil jogar mais atrás e atrair o adversário para contra-atacar, como fez contra a Itália e em algumas vitórias sobre a Argentina. Na maioria das partidas, o Brasil terá de pressionar e vai precisar de armadores que marquem mais na frente e se transformem em atacantes quando o time recuperar a bola.

A palavra volante só serve para confundir técnicos, imprensa e torcedores. É difícil compreender por que Gilberto Silva, Hernanes e Ramires são chamados de volantes, se são tão diferentes.

A partir de hoje, seguindo a sugestão de um leitor de Juca Kfouri, contada em sua coluna, não vou mais utilizar a palavra volante. Os jogadores de meio-campo, que quase só atuam do meio para trás, serão chamados de armadores defensivos; os que atuam quase só do meio para frente serão armadores ofensivos, e os que atuam de uma área a outra, como Ramires e Hernanes (esses são especiais) serão armadores defensivos e ofensivos.

Os brucutus continuam sendo brucutus. Fica mais simples e fácil.
Artilheiros. Os artilheiros são importantes, há vários jogando bem no Brasil, mas não precisa exagerar nas avaliações. Qualquer centroavante fazedor de gols, que não sabe dominar a bola e dar um passe ou um drible, é endeusado e muito mais valorizado que os outros.

Defendo a tese, que nunca será aprovada, que, se colocarem, um zagueiro raçudo, alto e de chute forte, de centroavante, ele também será artilheiro, ainda mais nos campeonatos estaduais.

Hoje, veremos, de um lado, Ronaldo, tentando se reencontrar com a leveza, com a alegria e com os sonhos que tinha aos 17 anos. Só não dá para ter o mesmo corpo. Do outro lado, o franzino Neymar, 17 anos, ainda uma promessa, tentando encontrar o segredo para se tornar um craque como Ronaldo. Passado, presente e futuro juntos. Encontros e reencontros. Todo encontro é um reencontro com algo vivido e/ou imaginado.
E o de Carlet:

Tostão reinventa a roda e extingue o volante - Blog do Wianey, 24 de março de 2009 - Se existe discussão mal conduzida e, mesmo assim, candente e interminável, é esta que envolve uma posição do futebol: o volante. Neste momento, é Tostão, médico, ex-craque e comentarista esportivo, quem joga gasolina no fogo anunciando que está extinta a função do volante. Quer dizer, o brucutu, quebrador de bola, limpa trilhos, o volante estritamente defensivo.

Na verdade, só existe uma verdade: começaram a surgir no Brasil, em bom número, volantes tecnicamente mais qualificados, que marcam e saem para o apoio com natural eficiência. A novidade não está na eliminação da função mas na qualificação da posição, fato que não se determina, apenas acontece, espontaneamente.

O reinado dos maus volantes, entretanto, não é tão absoluto, como se pensa. A Seleção Brasileira já teve Clodoaldo e Carpeggiani, para citar dois, que esbanjavam classe. Falcão, no início da sua carreira, era volante. Depois, Rubens Minelli convenceu o Bola-Bola, não foi fácil, a jogar mais adiantado. Como estes, dezenas de outros exemplos poderiam ser lembrados.

Muitas vezes, volantes foram carimbados como brucutus sem que merecessem o depreciativo conceito. O caso mais ilustre e recente foi Edinho. Fernando Carvalho refrescou a memória geral, recentemente, lembrando que nas finais da Libertadores, 2006, o volante que não sabia jogar deixou o Jorge Wagner pifado duas vezes na cara do gol e depois deu o passe pro Sóbis. Ainda nesta que foi a mais gloriosa temporada na vida do Inter, Edinho acertou 462 passes, ficando entre os três melhores passadores do Brasileirão, segundo levantamento do Data-Folha, se não me falha a memória. O problema de Edinho não era o passe, tampouco o apoio. Ele passava e apoiava com boa média de aproveitamento. Sua dificuldade era a pouca velocidade. Normalmente, chegava um pouco atrasado para o desarme e, como é muito forte, acabava atropelando o adversário, cometendo muitas faltas diante da sua área.

Não, os volantes não estão sumindo, coisa nenhuma. Felizmente, estão surgindo volantes com boa qualificação técnica e em bom número. Mas, quem presta atenção ao que acontece na aldeia, deve ter percebido que houve boa pressão contra a titularidade do volante Sandro. Não queriam um meia-atacante no seu lugar?

7 Comments:

Anonymous Edmar said...

Sancho, veja só essa: certa vez o lendário treinador Yustrich estava treinando o time da raposinha, quando lhe apresentaram um jogador de nome Geraldo (ex-Galo, envolvido na transação que levou Nelinho para meu time). Segundo me lembro, o treinador lhe perguntou: "Em que posição você joga?"

Ele disse: "Sou cabeça-de-área".

O Yustrich: "Não existe essa posição no futebol"...

24 março, 2009 12:21  
Anonymous Edmar said...

PÔ, esqueci de uma parte:

Diante disso, o Geraldo:

"Pois bem, então sou volante".

25 março, 2009 17:02  
Blogger Luiz Portinho said...

grande sancho, procurei o texto do Tostão (o Kenny mencionou no sala e fiquei curioso)... vou ler agora! sobre o q. tu escreveste, o "dez" era o antigo ponta de lança. e, na realidade, os "modernos" do futebol pregam a extinção do "cabeça de área" (fixo) e endeusam os "volantes" (meias de movimentação)... o problema é que esses mesmos "modernos" taxam o Edinho (típico cabeça de área) de jogador imprescindível.

25 março, 2009 19:40  
Blogger Luiz Portinho said...

tchê, o Tostão tá certo, embora eu não goste das denominações dele... agora, o Wianey, coitadinho, é muito limitado em conhecimentos (tem de mandar de volta para a reportagem - se bem que com a gordura que tá não tem mais condições)... tchê, a visão de volante do Wianey é completamente equivocada mesmo... a melhor denominação é a antiga: "5" = cabeça de área, meias (para os hernanes, lucas, andersons e outros) e ponta de lança para os jogadores do tipo kaká, r-inho etc.

25 março, 2009 19:53  
Blogger André Kruse said...

Eu achei esta coluna do Tostão um pouco ingênua e pretensiosa.

As coisas ficam perfeitamente entendidas quando se fala em 1º e 2 ºvolante, ou 1º, 2º, 3º e 4º homem do meio campo.

30 março, 2009 16:25  
Anonymous Anónimo said...

a questão não é a nomenclatura mas como e com quem se ocupa o espaço dentro de determinadas situações de jogo.O maior time do século XX no rio grande do sul teve caçapava ,batista e falcão em 1976 e terminou o brasileiro com 16 pontos na frente do vice.

01 abril, 2009 16:53  
Blogger Pedro Valadares said...

Olá, eu estou fazendo um trabalho e gostaria de usar seu post e gostaria de citar seu nome. Você pode me passar seu nome e sua profissão para eu poder citá-lo de forma mais precisa? meu e-mail é pedrovalad@gmail.com

Aguardo, ansiosamente, resposta

Pedro Valadares

28 outubro, 2009 10:57  

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